Greve de fome é estratégia política antiga, tem Gandhi como expoente e já foi adotada por Lula

PUBLICIDADE


Greve de fome é uma estratégia antiga usada por políticos e ativistas como forma de pressão para para chamar atenção para uma causa, denunciar injustiças ou exigir mudanças. Nesta semana, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) anunciou que não vai comer até o fim do processo de cassação do mandato dele na Câmara dos Deputados, repetindo o ato de outras lideranças em momentos históricos no mundo.

O parlamentar está sem se alimentar desde quarta-feira, 9, e dormindo no chão do plenário 5, onde ocorreu a sessão do Conselho de Ética que foi favorável à retirada dele do cargo. Com a tática, Glauber Braga buscar reverter o caso no plenário da Casa, que dará a palavra final no processo. Segundo a equipe do deputado, a pedido médico, ele está ingerindo soro fisiológico, isotônico e água para não desidratar completamente.

O deputado Glauber Braga está desde quarta-feira, 9, sem comer e dorme no chão do plenário 5, onde ocorreu a sessão do Conselho de Ética que decidiu pela perda de seu mandato  Foto: Wilton Junior/Estadão

A tradição da greve de fome, colocada em prática pelo deputado como forma de pressão aos colegas na Câmara, remonta ao século 8. Na Irlanda, as pessoas cobravam dívidas e reparações de injúrias jejuando na porta dos autores das ofensas.

Mortes na Irlanda do Norte por greve de fome

Politicamente, na Irlanda, a estratégia passou a ser usada em 1917, pelos republicanos – grupo que buscava uma República Irlandesa, independente do domínio britânico. A prática foi aplicada também pelo Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês), que fazia luta armada contra o controle do Reino Unido sobre a ilha.

Em 1981, uma greve de fome coletiva do IRA, liderada pelo irlandês Bobby Sands, com o objetivo de pressionar o governo de Margaret Thatcher a considerá-los presos políticos, levou à morte dele e de outros nove. Sands virou um mártir da causa no país.

Gandhi utilizou estratégia pacífica diversas vezes

Registros históricos apontam o líder indiano Mahatma Gandhi como um grande expoente dessa estratégia pacífica. Em um episódio, ele parou de comer para apoiar a greve de operários que reivindicavam salários melhores, na região indiana de Ahmedabad, em 1917.

Mahatma Gandhi (1869-1948) trabalha em um tear, na década de 1930. O líder indiano foi um dos precursores da greve de fome. Foto: Pictorial Parade

Anos depois, a prática foi utilizada diversas outras vezes pelo pacifista no processo de independência da Índia, a época sob domínio britânico, e também contra a violência sectária entre hindus e muçulmanos.

Prática foi usada no Brasil em momentos diferentes da História

No Brasil, a prática foi adotada em diversos momentos nos anos mais recentes. O historiador João Gualberto, professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), doutor em Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e pós-doutor em Gestão e Cultura (UFBA), explica que a greve de fome é uma ferramenta da política colocada em prática nas sociedades democráticas.

“A greve de fome é um instrumento da política mais recente, da sociedade democrática, da sociedade que tem uma prisão. No Brasil, até o século 19, até o período imperial, não havia a ideia de que a prisão é um lugar onde a pessoa vai se ressocializar. Era para punir, era jogado na masmorra. Não tinha opinião pública formada, não tinha meio de comunicação, não tinha sistema democrático, não tinha nada que permitisse o surgimento desses elementos”, disse.

“Desde que esses elementos estão colocados, é um instrumento válido e que produz resultados. Pode ser eficiente como instrumento de pressão. No caso da política, como do deputado agora, é produzir a não cassação dele. Está chamando a atenção sobre causa dele e tem adesão enorme nas redes sociais, que são os veículos de fazer política hoje”, explicou.

Lula ficou sem comer durante greve no ABC

Na década de 1980, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou seis dias sem comer, quando foi preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) por liderar greve de 41 dias no ABC paulista, já no final do período da ditadura militar.

O então sindicalista quase pôs o esforço dele e de outros nove companheiros a perder ao cogitar chupar uma bala para enganar a fome. Em pronunciamento durante um evento no ano passado, o presidente relembrou o episódio, citando o momento em que a greve se encaminhava para o fim.

“Quando recebi a notícia de que os trabalhadores estavam aprovando um pedido para pararmos a greve de fome, o que aconteceu? Ficamos pensando em comer. E aí, eu vou contar para vocês um sonho: eu sonhava acordado, imaginando aqueles frangos assados na frente da padaria, que o cachorrinho fica olhando o tempo inteiro, aquele frango rodando lá, e eu imaginava o frango daquele todinho na minha mão, e eu comendo, pegando na coxa, na asa, no pescoço. E é isso que eu queria”, contou Lula.

Lula abraça o filho Sandro ao retornar à sua casa em São Bernado do Campo, em maio de 1980. Foto: Clovis Cranchi Sobrinho/Estadão

Também na prisão, dezenas de presos pelo Brasil aderiram à estratégia para pressionar a anistia ampla, geral e irrestrita aos encarcerados políticos da ditadura militar, quando o regime chegava ao fim e o projeto de lei para perdoar os crimes cometidos no período era discutido.

Presos políticos fizeram greve de fome de 32 dias pela anistia ampla, geral e irrestrita.  Foto: averdade.org.br

Em 1979, presos do Rio de Janeiro iniciaram a greve de fome que durou 32 dias e se espalhou pelo País, contando com apoio de setores da sociedade, como membros da igreja, artistas e intelectuais. A lei foi sancionada em agosto daquele ano, mas também permitiu que agentes públicos não fossem processados por violações aos direitos humanos durante o regime militar.

Câmara já foi palco de outras greves de fome

Antes de Glauber Braga, a Câmara já foi palco de greves de fome de outros parlamentares. Quando se discutia uma nova Constituição para redemocratizar o País após os anos de ditadura, o então deputado José Wilson Siqueira Campos, conhecido por Siqueirão, parou de comer para forçar o desmembramento do norte de Goiás em um novo Estado. A greve de fome, que durou quase cinco dias, resultou na criação do Tocantins, Estado do qual Siqueira Campos foi governador por quatro mandatos.

Em 2010, o então deputado petista pelo Maranhão Domingos Dutra e o líder camponês e um dos fundadores do PT Manoel da Conceição chegaram a desmaiar no plenário da Casa. Os dois faziam o protesto contra a decisão do diretório nacional do partido de anular o apoio do PT do Maranhão à candidatura do então deputado do PCdoB Flávio Dino, e apoiar a reeleição de Roseana Sarney (MDB).

Os dois tomaram somente água e água de coco durante uma semana, quando um acordo permitindo que a ala de Dutra ficasse livre para apoiar Dino ao governo do Maranhão foi firmado.

O então deputado federal Domingos Dutra (PT MA), dormindo em um colchão, na companhia de Manoel da Conceição, fundador histórico do PT. Os dois fizeram greve de fome no plenário da Câmara, em junho de 2010 Foto: Dda Sampaio/Agência Estado

Para o cientista político e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Tiago Valenciano, as greves de fomes são mais raras do que as greves comuns, com paralisações de serviços, por exemplo. Segundo ele, por ser vista pela sociedade como um movimento isolado e individual, a greve de fome pode não sensibilizar tanto as pessoas.

Já a greve, em si, é um instrumento de negociação política mais usual, utilizado pela esquerda principalmente em demandas por políticas sociais e afirmativas. Setores ligados à extrema direita também inauguraram o uso desse tipo de paralisação em 2022, quando acamparam em frente aos quartéis do Exército em recusa a aceitar o resultado das eleições daquele ano, em que Jair Bolsonaro (PL) saiu derrotado por Lula.



Source link

Mais recentes

PUBLICIDADE

Rolar para cima