O jantar de arrecadação pelos 46 anos do PT, que aconteceu em Brasília na noite desta segunda-feira, 4, não contou com a presença do presidente Lula, mas ministros e dirigentes petistas só falavam em uma coisa: a fragorosa derrota sofrida pelo governo na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF).
E a certeza de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), trabalhou ativamente pelo primeiro não a um indicado à Corte desde Floriano Peixoto, no final do século 19. O ministro Alexandre de Moraes também foi jocosamente chamado de “herói” por alguns dos presentes, certos de que ele também atrapalhou os planos do advogado-geral da União.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e o presidente do PT, Edinho Silva, entre outros presentes, falavam em “esperar decantar” a derrota e agir com calma ao discutirem a possibilidade de indicação de novo nome para o STF e os próximos passos na relação com o Senado. “A gente não deve fazer nada com rancor. É da natureza humana, ou deveria ser”, minimizou Guimarães.
Sincericídio de Jorge Viana
O ex-presidente da Apex e ex-senador Jorge Viana (AC), pré-candidato ao Senado, teve um momento de sincericídio e chamou o Congresso de “esgoto” e “guichê de negócios”, ao afirmar não haver “razão plausível” para os congressistas terem barrado o nome de Messias, “a não ser negócios”. “A insensatez tomou conta do Senado”, afirmou. E sentenciou: “A disputa pelo Senado será a mãe das batalhas. Ganhar a Presidência da República não será suficiente”.

O ex-senador Jorge Viana (AC), novamente pré-candidato ao Senado, e o presidente do PT, Edinho Silva, no jantar do partido Foto: LETICIA FERNANDES/ESTADAO
Antes do desabafo, Viana brincou com Edinho ao dizer que, se fosse eleito senador, a “culpa” seria dele, que defendeu que o petista saísse candidato mesmo depois de Lula liberá-lo. “Petista há 200 anos e vai ficar no governo?”, afirmou o presidente do PT, segundo Jorge Viana.
Entre goles de um vinho tinto Malbec de 2024 e conversas com petistas, José Guimarães dizia estar “exausto”. O motivo oficial, contou, é ter voltado a malhar por recomendação médica, por conta de uma prótese que colocou no quadril em 2023. O ministro chegou às 20h e deixou o jantar por volta das 22h, ao som de Killing Me Softly With His Song, famosa na versão da banda Fugees.
Fim da 6X1 no cardápio do jantar
Além do farto buffet que oferecia pratos como filé mignon ao molho roti, risoto de funghi e frango ao molho de mostarda Dijon, o fim da escala 6×1 também entrou no cardápio da festa do Partido dos Trabalhadores. Logo na entrada, foram distribuídos adesivos aos convidados defendendo a redução da jornada de trabalho.
O deputado Reginaldo Lopes (MG), um dos autores da PEC que tramita na Câmara, disse à Coluna do Estadão durante o convescote que a proposta será votada em plenário no dia 21 de maio.
“Chegou a hora de votar, não tem nada na economia que justifique não fazer o fim da 6×1″, afirmou.
Delúbio Soares tietado
O jantar teve poucos ministros presentes. Além de José Guimarães, apenas as ministras Miriam Belchior (Casa Civil) e Esther Dweck (Gestão e Inovação) prestigiaram a festa.
Mas um convidado de camisa polo vermelha com o broche do PT e chapéu Panamá circulava com desenvoltura pelo salão, sendo tietado por militantes que pediam fotos. Era o ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, que foi condenado no mensalão e agora é pré-candidato a deputado federal pelo Estado de Goiás.
À Coluna, ele afirmou que a prioridade do ano é “eleger Lula” e voltar ao seu Estado natal após 40 anos de São Paulo.
“Resolvi meus problemas na Justiça e agora quis voltar para o Goiás, quero conversar com as pessoas”, disse Delúbio.

Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, é tietado por convidados no jantar de 46 anos do partido Foto: LETICIA FERNANDES/ESTADAO
O jantar pelo aniversário de 46 anos do PT arrecadou cerca de R$ 2 milhões, segundo estimativas do partido, e vendeu ingressos que variavam entre R$ 1 mil e R$ 50 mil.
A ausência de Lula, segundo Edinho Silva, se deu porque ele está proibido de transpirar, por conta da retirada de uma lesão na cabeça.
Edinho fez uma breve fala no evento em que chamou a militância a fortalecer o partido para que o PT seja “protagonista de um Brasil forte e soberano” e enfrente os desafios eleitorais. “É o que eu posso falar, disseram pra mim que a legislação eleitoral só deixa eu falar até aqui”, finalizou, deixando o palco ao som de Sossego, de Tim Maia.

Edinho Silva discursa em festa de 46 anos do PT Foto: LETICIA FERNANDES/ESTADAO