Hoje, 6 de maio, é último dia para que cidadãs e cidadãos regularizem sua situação eleitoral e garantam o direito ao voto nas eleições de outubro. Mais do que um marco do calendário da Justiça Eleitoral, esse momento revela a capacidade das instituições de mobilizar a sociedade em torno da participação democrática.
Ao observar esse movimento, é inevitável revisitar a experiência de 2022, quando estive à frente da Secretaria de Comunicação do Tribunal Superior Eleitoral. Naquele período, o desafio de comunicação ultrapassava a simples divulgação de prazos e serviços. Havia um cenário mais amplo a ser enfrentado, marcado por desinformação, alta polarização e, sobretudo, pelo baixo engajamento de um público estratégico: os jovens.
Em dezembro de 2021, o Brasil registrava o menor número de eleitores entre 16 e 17 anos da história, com apenas cerca de 10% dessa população cadastrada. O dado evidenciava que o problema não estava na ausência de informação, mas na dificuldade de conexão com esse público. Era preciso ir além da comunicação institucional tradicional.

Entre janeiro e abril de 2022, mais de 2 milhões de jovens entre 16 e 18 anos se registraram como eleitores, o que representou um aumento de 47,2% em relação ao mesmo período de 2018 e de 57,4% na comparação com 2014 Foto: Antonio Augusto/TSE
Sob a gestão do ministro Edson Fachin, então presidente do TSE, que apoiou a iniciativa desde o início, foi estruturada uma estratégia voltada a reverter esse cenário. A leitura era clara de que os canais institucionais, isoladamente, não seriam suficientes para alcançar o público jovem. Era necessário ocupar o ambiente digital onde esses eleitores já estavam, dialogando por meio de linguagens mais próximas da sua realidade.
A partir dessa diretriz, a campanha foi construída com base em alguns pilares. A linguagem adotada buscou se afastar do tom jurídico tradicional, incorporando referências culturais contemporâneas, como memes e tendências das redes sociais, com expressões como “Dá um help no seu voto” e “Rolê das Eleições”. Ao mesmo tempo, houve um esforço consistente para facilitar o acesso ao serviço, com destaque para o Título Net, que permitia o alistamento eleitoral de forma totalmente online.
Outro elemento central foi a construção de parcerias. A campanha contou com a participação de 20 clubes de futebol, da Confederação Brasileira de Futebol, de plataformas digitais como o Kwai, do Google, que enviou notificações para celulares Android em todo o País, e do Uber, que ofereceu descontos em corridas com destino a cartórios eleitorais. Além disso, a estratégia de influência se apoiou em engajamento orgânico, estimulando a adesão espontânea de artistas e personalidades, em vez de campanhas pagas.
Nesse contexto, uma das ações mais emblemáticas foi o tuitaço #RolêDasEleições, realizado em 16 de março de 2022. A mobilização alcançou 88,4 milhões de pessoas e reuniu cerca de 4,7 mil participantes, incluindo celebridades, fã-clubes, clubes de futebol e instituições. O movimento ganhou ainda mais força com o apoio de nomes como Anitta, Luísa Sonza, Casimiro, Whindersson Nunes, além de personalidades internacionais como Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo.
Paralelamente, a campanha #Até4deMaio colocou no centro do debate o prazo final para tirar, transferir ou regularizar o título de eleitor, contribuindo para transformar um procedimento técnico em um tema de relevância pública. Esse esforço foi acompanhado por uma atuação intensa de assessoria de imprensa, que resultou em mais de mil matérias publicadas, além de dez semanas consecutivas de presença nos principais telejornais do país e repercussão internacional.
Os resultados foram expressivos. Entre janeiro e abril de 2022, mais de 2 milhões de jovens entre 16 e 18 anos se registraram como eleitores, o que representou um aumento de 47,2% em relação ao mesmo período de 2018 e de 57,4% na comparação com 2014. O engajamento alcançado contribuiu para a maior participação da juventude nas eleições em quase 90 anos.
Esse impacto também foi reconhecido institucionalmente. O Tribunal Superior Eleitoral conquistou o primeiro lugar do Prêmio Nacional de Comunicação e Justiça na categoria Campanha Institucional de Interesse Público.
Mais do que os números, no entanto, essa experiência deixou um legado importante para a comunicação pública. Ela demonstrou que é possível manter o caráter institucional sem rigidez, aproximando a linguagem da realidade social sem perder credibilidade. Mostrou também que a construção de parcerias estratégicas é fundamental para ampliar o alcance das mensagens e combater a desinformação de forma mais eficaz.
A experiência evidenciou, ainda, que a comunicação pública em ambientes digitais exige coragem institucional para inovar, além de capacidade de articulação para orquestrar diferentes atores em torno de um objetivo comum. Ao transformar o fechamento do cadastro eleitoral em um momento de mobilização coletiva, a campanha contribuiu para ressignificar a relação entre instituições e sociedade.
Ao longo dos últimos anos, avanços importantes foram realizados. Ainda assim, permanecem desafios estruturais relacionados ao engajamento cívico, à circulação de informações e à construção de confiança nas instituições.
Nesse contexto, o encerramento do prazo para o cadastro eleitoral deve ser compreendido não apenas como uma data administrativa, mas como uma oportunidade de reafirmar o papel da comunicação pública na promoção da participação social.
Mais do que informar, comunicar, no setor público, significa criar condições para que cidadãs e cidadãos se reconheçam como parte ativa do processo democrático. Trata-se de um exercício contínuo, que exige responsabilidade, consistência e compromisso com o interesse público.