Em discurso, Flávio Bolsonaro atribui eventual vitória ao Nordeste e prevê governo inspirado no pai

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BRASÍLIA — “Se a gente comparar com a eleição passada, a gente tirou muita diferença no Nordeste”, declarou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no QG de sua campanha à Presidência da República na noite do domingo, 4. Ao redor dele, os convidados tinham à disposição churrasco e chope, ao som de funk. “É de lá que virá a nossa vitória”.

Num discurso ao microfone para preservar a voz combalida, Flávio agradeceu à sua equipe pelo trabalho feito na campanha eleitoral, criticou o governo Lula e disse esperar pela vitória dali a três semanas, segundo relatos feitos ao Estadão. Diante deles estava ao telão mostrando o mapa do Brasil dominado pela cor azul. O enclave vermelho se destacava na Região Nordeste.

Candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro dá entrevista à imprensa após ter confirmada presença no segundo turno da eleição, à frente de Lula Foto: Wilton Junior/ Estadão

“Eu só quero uma oportunidade para mostrar para aquela parte do mapa que está vermelho que a gente é infinitamente melhor do que o PT. Eles (nordestinos) estão escravizados, e nós vamos libertar eles”, disse.

Lula, de fato, perdeu votos no Nordeste nesta eleição em comparação à anterior — a queda se deu em todas as regiões. Em 2022, o petista teve 21,75 milhões de eleitores nordestinos (66,76% dos votos nos nove Estados); agora foram 21,49 milhões (63,77%), uma queda de 2,99 pontos percentuais. Trata-se de uma retração maior do que o Norte (-2,44) e no Sudeste (-2,95).

O comentário sobre o Nordeste foi o único feito por Flávio, em cerca de quatro minutos de discurso na área externa de uma mansão no Lago Sul, em Brasília, analisando o resultado depreendido das urnas ao final do primeiro turno das eleições.

Em seguida, ele avaliou que o desempenho do presidente Lula (PT), seu adversário, sofreu pela “fadiga de material”. E então citou os “R$ 350 milhões que eles gastaram nas últimas semanas” para tentar vencer o pleito.

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“Eu tenho certeza que a gente vai conseguir fazer um governo inspirado no governo do meu pai, ainda melhor do que o dele, porque a gente tem aqui do nosso lado várias pessoas que fizeram parte do nosso governo, de 2019 a 2023, e tem ainda várias pessoas que podem somar ao nosso time”, afirmou Flávio.

Ao seu redor, aliados cantavam jingles de campanha ao ritmo de funk: “A direita tá chegando/ o bonde todo tá sem freio/ Uhu, aha, esquerdista, sai do meio, a direita tá chegando/ não adianta se esconder, todo mundo tá ligado/ quem ficar parado é petista disfarçado”.

Nas horas anteriores, ao longo da apuração dos votos, o senador passou o tempo sentado numa mesa à frente de um notebook, analisando o desempenho do PL nos Estados. Sua esposa Fernanda Bolsonaro, o senador Rogério Marinho (PL-RN) e a economista Daniella Marques pouco desgrudaram dele. Na medida em que a apuração chegava ao fim, o telefone não parou de tocar.

Entre todas as votações, o desempenho de Douglas Ruas, candidato do PL ao governo do Rio, foi o que mais surpreendeu a campanha de Flávio, de acordo com o relato de um integrante. O aliado teve 49,27% dos votos no Estado, à frente do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), com 42,76% — os trackings internos haviam detectado uma aproximação e até empate com Paes, não a ultrapassagem.

A avaliação da campanha é que o desgaste da imagem de Lula, que passou metade dos últimos 24 anos à frente da Presidência da República, preponderou sobre as demais variáveis. Um integrante da equipe diz que, “no monitoramento das redes sociais, isso é muito gritante, tem sempre muita porrada no governo”.

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), com o envolvimento suspeito de ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro, ajudou o candidato do PL a incorporar o “espírito do tempo”, na visão de seus aliados. Mesmo estando envolvido no escândalo via caso “Dark Horse” após ter pedido R$ 134 milhões ao dono do Banco Master para supostamente financiar um filme sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Antes das 22h, Flávio saiu do QG para fazer uma tumultuada coletiva de imprensa. O senador disse que a maioria dos institutos de pesquisa não o colocavam na frente do primeiro e que, por pouco, ele não venceu ainda no primeiro turno. “Está decretado o fim da era do PT”, declarou.

Flávio deixou o local pouco antes das 23h e foi para casa, na mesma vizinhança. Nesta segunda-feira de manhã, acordou cedo para jogar tênis na quadra de um amigo. Em seguida, voltou à mansão no Lago Sul, onde deve ter um encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no fim da tarde, para tratar da campanha no segundo turno.

A prioridade agora está com o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha e seu principal articulador político, que deve buscar os demais candidatos para pedir seu apoio a Flávio no segundo turno.

Os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) são as apostas mais promissoras, uma vez que Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) sinalizaram em entrevistas neste domingo para uma postura de neutralidade.

A partir de terça-feira a equipe completa volta a se reunir. A comunicação deve manter o foco nos grandes temas, como a perda do poder de compra dos brasileiros e a segurança pública, com ajustes pontuais, estéticos, para marcar uma diferença em relação à campanha rumo ao primeiro turno.

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