Está na lei. Por decreto, a Polícia Militar de São Paulo deve ter 93.802 policiais e 477 oficiais médicos. Mas em 9 de janeiro deste ano, a corporação tinha apenas 81.594 policiais, segundo dados obtidos pela coluna por meio da Lei de Acesso à Informação. Trata-se de um dos mais baixos níveis de efetivo da corporação neste século, muito próximo do recorde histórico de 80.137, registrado em janeiro de 2023, no início do governo Tarcísio de Freitas.

O coronel José Augusto Coutinho, comandante da PM, durante sua posse e o então secretário da Segurança, Guilherme Derrite: eles tinham plano para aumentar o número de coronéis da PM, o que retiraria mais meio batalhão das ruas Foto: Secretaria da Segurança Pública
E esse número já caiu ainda mais. Somente em janeiro 334 policiais militares pediram exoneração (93), passagem para reserva (234) e reforma ou exoneração (7), aumentando uma sangria que só cresceu nos últimos quatro anos: a saída cada vez maior de policiais da corporação. Em 2020, 356 haviam pedido exoneração. No ano seguinte, esse número subiu para 544. Em 2022, o total chegou a 669 e pulou para 676 em 2023, primeiro ano do governo Tarcísio para atingir 806 em 2024 e estabelecer o recorde de 917 em 2025. “A perda foi de 10 mil nos últimos 15 anos”, afirmou o coronel da reserva José Vicente da Silva.
Enquanto a PM paulista sangra, a gestão de Guilherme Derrite na Secretaria da Segurança Pública criou novas assessorias para que os PMs carreguem as pastas de autoridades em vez de correr atrás de bandidos que roubam celulares nas ruas. Esse foi o caso das assessorias da Secretaria da Fazenda e da Controladoria Geral do Estado (CGE), onde o ex-secretário pôs capitães de sua confiança para acompanhar os titulares das pastas.
Quando se observa o novo quadro oficial de distribuição de efetivos da corporação, publicado no Diário Oficial de 4 de fevereiro, o total de homens à disposição do Poder Executivo saltou de 216 para 358, um aumento de 65% no total dos policiais à disposição dos secretários de Tarcísio. Ou seja, a tropa que trabalha com as autoridades aumenta enquanto a atividade fim, segundo coronéis, continua em segundo plano, com as Guardas Civis tomando o lugar da PM no patrulhamento das ruas e na captura de bandidos com programas como o Smart Sampa.

Caminhão da GCM/Smart Sampa parado em frente ao prédio da Fiesp, na Avenida Paulista: GCM tomou conto do policiamento na avenida e no centro da cidade Foto: Werther Santana/Estadão
Eles dizem que o paulistano que quiser observar esse fenômeno precisa só dar uma volta pelo centro da cidade ou pela região da Avenida Paulista para observar como a GCM tomou conta das ruas. Enquanto isso, a PM mantém o efetivo equivalente a uma brigada de infantaria imobilizada em cinco batalhões de choque que, à exceção de um pelotão da Rota em cada período do dia, ficam a maior parte do tempo aquartelados, como a antiga Força Pública.
Segundo coronéis da ativa e da reserva ouvidos pela coluna, há problemas no recrutamento de novos policiais, um deles envolveria os exames psicotécnicos, que estariam reprovando candidatos muito bem colocados nos exames físico e escrito até para a Academia do Barro Branco. Outros dizem que o problema maior estaria na pouca valorização da carreira, relacionado aos salários pagos e aos riscos enfrentados no dia a dia.
O governo Tarcísio costuma divulgar números de policiais contratados e afirmar que já contratou mais de 12 mil policiais militares desde o começo da gestão. O governo chega a dizer que este é o “maior ciclo de recomposição (de efetivos) da história recente”. Mas o total, como demonstra o efetivo existente em janeiro, mal conseguiu fazer a corporação se distanciar do recorde negativo registrado em 2023 – o saldo era de 1.123 homens. Ou seja, se a PM parou de encolher, mas ela também não se recupera como deveria.

O capitão Alexandre Paulino da Silveira, chefe e um dos 21 PMs da Assessoria Militar da Câmara Municipal de São Paulo, foi preso em 4 de fevereiro sob a suspeita de fazer segurança a empresário ligados ao PCC; no mesmo dia, o governador criou nova assessoria para comando da PM Foto: Reprodução
E o pior. No último dia 4, o governador Tarcísio, por meio do decreto 70.365, criou mais uma assessoria policial na PM. Desta vez, trata-se da Assessoria Policial Militar do Comando Geral (APMGC), alterando o decreto de 2020 que dispunha sobre a estruturação da polícia. Assim, sem contar com essa nova assessoria, a PM disponibiliza um total de 1.318 homens para cuidar das mais diversas autoridades. É o efetivo de dois batalhões fora das ruas.
Entre eles estão os 347 à disposição de Tarcísio, que fazem parte da guarda do Palácio dos Bandeirantes e da Defesa Civil. Mas também estão ali casos polêmicos. Por exemplo: por que a Prefeitura de São Paulo, que conta com uma Guarda Municipal com quase 8 mil homens, precisa de 39 PMs em uma assessoria policial e a Câmara Municipal recebe outros 21?
Ou ainda por que o Tribunal de Contas do Estado conta com 35 policiais, em cargos cuja imensa maioria está preenchida, enquanto os claros (vagas não preenchidas) nas companhias de patrulhamento dos bairros costumam chegar a até 20% de seus efetivos? O Ministério Público, como um todo, onde atividades de inteligência poderiam ser desempenhada pelos policiais, tem 79 homens.
Coronéis descontentes com a situação afirmam: enquanto falta polícia na rua, sobram nos quartéis e nos gabinetes. E uma parcela enorme dos que estão nas ruas foi deslocada para tropas especializadas que não estão comprometidas com o policiamento territorial. Ou como resumiu um coronel: “A tropa da área (batalhões de policiamento) está só atendendo o 190″. E, quando faz uma prisão em flagrante, não há quem substitua na rua a equipe que ficará parada na delegacia “conduzindo a ocorrência”.
José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM de São Paulo, foi secretário nacional de segurança pública, consultor do Banco Mundial e professor do Centro de Altos Estudos de Segurança e da Escola Superior de Guerra Foto: Werther Santana/Estadão
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Enquanto isso, o comando da PM, instado por Derrite, fez um plano para aumentar em 46% total de coronéis da PM (30 novas vagas), a um custo de R$ 120 milhões para o Estado. Isso significaria a compra de 60 carros para os novos coronéis e o afastamento de 180 policiais militares seriam afastados do patrulhamento das ruas para atender aos novos coronéis como ordenanças, motoristas e seguranças. O plano da farra dos coronéis foi enviado pela PM ao Palácio dos Bandeirantes. E lá dorme sem uma decisão final.
A crise na Polícia Civil
Na Polícia Civil, a situação não é muito diferente. Lá também a gestão de Derrite contratou, contratou, mas não conseguiu mudar quase nada a situação de penúria na instituição. Na polícia responsável por investigar o crime organizado o déficit de pessoal caiu de 16.739 em 2023 para 14.377 em 2025. O problema é que o efetivo previsto para a corporação é de 41.912. Com a metade do tamanho da PM, a Polícia Civil tem um déficit numericamente maior do que as 12.308 vagas em aberto existentes da Polícia Militar em 9 de janeiro. Seu déficit chega, assim, a 34% do efetivo previsto.
Ou seja, a falta de policiais é uma crise da Segurança Pública. Enquanto Derrite criticava a saidinha de presos e as audiências de custódia, as polícias sob seu comando arrastavam sua sangria de efetivos em silêncio. Entre 2023 e janeiro de 2026, a Polícia Civil perdeu 3.671 profissionais, o que quase anulou as 5.760 contratações feitas. E não haveria tempo hábil, segundo delegados consultados, para que novos concursos sejam concluídos e policiais contratados ainda neste ano, o que pode agravar o déficit em 2026.

Jacqueline Valadares, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo: contratações não impedem a fuga em massa e déficit da Polícia Civil é de 34% enquanto o salário de delegado é o 24º pior do País
Segundo a presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia (Sindpesp), a delegada Jacqueline Valadares, “os números mostram que a diferença entre o que a corporação perdeu e ganhou de efetivo no período é mínima”. Segundo ela, como um concurso demora muitos anos para ser concluído, a Polícia Civil “perde funcionários numa velocidade muito maior do que contrata”.
“A contratação por si é trabalho inócuo, porque o Estado não está conseguindo manter os profissionais na carreira. É preciso que haja uma política de valorização.” Ela costuma ilustrar sua crítica com uma tabela, na qual o salário de um delegado em São Paulo em começo de carreira (R$ 15.789,89) é o 24.º pior do País– ganha só de Minas, Bahia e Paraíba e é a metade de Mato Grosso (1.º lugar). Eis o quadro que desafia Tarcísio e Derrite em 2026.
Em tempo. Esta coluna procurou o Palácio dos Bandeirantes e a Secretaria da Segurança Pública em busca de respostas. Eis a íntegra da nota da secretaria para que o leitor possa saber o que o governo tem a dizer:
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informa que a gestão do efetivo das polícias estaduais é conduzida com base em critérios técnicos, planejamento estratégico e preservação das atividades-fim de manutenção da segurança pública.
O efetivo da Polícia Militar alocado em assessoramentos vinculados ao Poder Executivo passou de 232 para 358 vagas entre 2023 e 2026. Essa variação decorre de ajustes administrativos e do fortalecimento das estruturas de coordenação, inteligência, planejamento e integração institucional, que dão suporte direto às operações. Essas funções são estruturadas de forma a preservar a prioridade das unidades operacionais e da presença policial nas ruas.
Esse movimento ocorre em paralelo ao maior ciclo de recomposição da história recente da segurança pública paulista, com ações específicas para cada corporação:
Na Polícia Militar, desde 2023, foram formados 9,8 mil novos policiais militares, que já estão em atividade. No período, foram lançados nove editais de concurso, e estão previstos novos certames para 4,4 mil soldados, além de 200 alunos-oficiais e 36 tenentes-médicos. Mesmo diante das exonerações a pedido, o volume de ingressos permitiu manter e ampliar a capacidade operacional.
Na Polícia Civil, a atual gestão realizou a maior nomeação da história da instituição, com mais de 4 mil vagas, incluindo 1.078 remanescentes dos editais de 2022, número 36,7% superior ao inicialmente previsto. O reforço permitiu recompor equipes investigativas, unidades especializadas e áreas estratégicas.
No conjunto das forças já foram formados 15.014 novos policiais, sendo 7,8 mil apenas em 2024, o maior volume dos últimos 14 anos. Considerando formados, concursos em andamento e vagas autorizadas, a meta da gestão é alcançar 26,2 mil novos policiais.
Paralelamente à recomposição de pessoal, a gestão realizou investimentos estruturais expressivos, com mais de R$ 1,2 bilhão aplicados em viaturas, armamentos, coletes e obras, fortalecendo as condições de trabalho e potencializando a atuação das forças de segurança.
O modelo adotado combina presença policial, inteligência e tecnologia. Programas como a Muralha Paulista, o SP Carga e a ampliação da integração com o Ministério Público e a Polícia Federal – com mais de 450 operações conjuntas – ampliam a eficiência do sistema, qualificam a gestão e fortalecem o enfrentamento ao crime organizado. Além disso, a gestão tem fortalecido o combate a crimes praticados no ambiente virtual, por meio do Núcleo de Operações e Análise Digital da SSP.
O resultado desse conjunto de medidas é mensurável. Em 2025, na comparação com 2024, o estado registrou:
• –3,1% nos homicídios dolosos;
• –22,2% nos latrocínios;
• –16,7% nos roubos em geral;
• –26,2% nos roubos de carga;
• –21% nos roubos de veículos.
Portanto, o aumento pontual em áreas de assessoramento está inserido em um contexto de expansão histórica do efetivo, modernização tecnológica e fortalecimento institucional. Trata-se de estrutura de suporte necessária para gerir um sistema de segurança significativamente ampliado, mais tecnológico e mais integrado, sem prejuízo ao policiamento nas ruas.