MDB completa 60 anos mais uma vez dividido sobre qual caminho seguir na disputa presidencial

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O MDB completa 60 anos de existência nesta terça-feira, 24, dividido sobre qual caminho seguir na próxima eleição presidencial. Sem consenso interno, a tendência é que o partido não lance candidato próprio nem apoie nenhum nome na disputa, como fez em outras ocasiões na história.

O maior desafio é fazer isso sem que haja um racha interno, como em 1998, quando uma ala defendia apoiar a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e outra queria candidatura própria. A convenção nacional terminou em pancadaria, com socos e pontapés.

Nos últimos anos, esse tipo de conflito diminuiu à medida que uma nova geração, de perfil mais pragmático, passou a ocupar espaço na direção do partido. Por isso, lideranças da legenda esperam adotar o caminho da neutralidade neste ano sem grandes turbulências.

Em 2022, também dividido, o partido aprovou a candidatura de Simone Tebet com 262 votos favoráveis e nove contrários. Embora a então senadora não tenha recebido apoio de correligionários em parte dos Estados, a votação ajudou a demonstrar alguma unidade interna.

Neste ano, um levantamento interno mostra que há 16 diretórios contrários a uma aliança com Lula. Por isso, o único caminho que emedebistas consideram possível é uma aproximação com o PSD, que caminha para lançar candidatura própria ao Planalto.

Divisões começaram já na origem

A origem das divisões internas do MDB remonta ao período em que a legenda foi criada, ainda durante a ditadura militar. Em 1965, o regime extinguiu os partidos existentes e impôs regras que empurraram o País para o bipartidarismo, levando os políticos a se organizarem em duas legendas: a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que reuniu apoiadores da ditadura, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que se tornou a única oposição permitida e abrigo de opositores que não haviam sido cassados ou exilados.

A literatura aponta que o MDB foi formado majoritariamente por integrantes de partidos trabalhistas, sobretudo o PTB, e por ex-membros do PSD, mais ao centro. Embora a maioria dos integrantes da UDN tenha migrado para a Arena, uma ala minoritária aderiu ao MDB.

A trajetória do partido, por muitos estudiosos considerado o mais longevo em atividade, se entrelaça à história recente do próprio País. Ao longo dessas seis décadas de existência, o MDB atravessou crises, mas manteve relevância nacional: ainda hoje, é a sigla com maior número de filiados, cerca de 2 milhões, e a segunda em prefeituras.

A existência de um partido de oposição em plena ditadura pode parecer contraditória. Na prática, porém, foi usada pelo regime para sustentar ares de normalidade democrática, especialmente diante da comunidade internacional.

Dificuldades no início e a virada com Ulysses

Nos primeiros anos como oposição, o MDB enfrentou dificuldades para se manter ativo, sobretudo após o AI-5, em 1968, mais duro ato da ditadura que cassou lideranças do partido e suspendeu garantias fundamentais. Em 1970, após uma derrota eleitoral, a cúpula chegou a discutir a autodissolução, mas a ideia foi descartada.

A chegada de Ulysses Guimarães à presidência nacional da sigla marcou uma inflexão na trajetória do MDB. Em 1973, no auge da ditadura, Ulysses se lançou “anticandidato” à Presidência e percorreu o País denunciando a repressão do regime.

Embora tenha sido derrotado, o movimento abriu caminho para uma vitória expressiva do MDB nas eleições legislativas de 1974, quando o partido conquistou 16 das 22 cadeiras em disputa e passou a atuar com mais força no Congresso, impondo uma derrota importante à ditadura.

Em 1979, o fim do bipartidarismo extinguiu a legenda, que se reorganizou sob o nome PMDB – a nova legislação exigia a palavra “partido” na composição do nome. Apesar da mudança e do surgimento de novas siglas de oposição, o PMDB manteve seu protagonismo. Em 1982, nas primeiras eleições diretas para governador desde o início da ditadura, venceu em nove Estados, incluindo São Paulo, com Franco Montoro, e Minas Gerais, com Tancredo Neves. O resultado foi decisivo para impulsionar a campanha das Diretas Já.

O partido tentou aprovar uma emenda para restabelecer as eleições diretas para a Presidência, mas a proposta foi rejeitada pelo Congresso. A solução política foi uma aliança em torno de uma chapa formada por Tancredo Neves e José Sarney, que venceu a última eleição indireta do País.

Com a morte de Tancredo, Sarney assumiu a Presidência e, em 1988, o Brasil promulgou a Constituição que trouxe de volta o Estado Democrático de Direito.

No período pós-redemocratização, o MDB se consolidou como um partido de perfil governista, compondo com diferentes presidentes, de Fernando Henrique Cardoso a Lula e Dilma Rousseff.

Chegou ao Planalto com Michel Temer em 2016, após o impeachment de Dilma, processo até hoje alvo de questionamentos. Temer, chamado pelo PT de “golpista”, adotou uma agenda de viés liberal e com baixa popularidade, enquanto lideranças do partido foram atingidas por escândalos de corrupção.

Depois desse período conturbado, o MDB passou por um processo de reposicionamento, no qual apostou em mecanismos de compliance e resgatou o seu antigo nome, MDB. Durante o governo Jair Bolsonaro, viu partidos do Centrão ocuparem posições estratégicas tanto no Executivo quanto no Congresso Nacional e passou a ser ameaçado pelo crescimento do PSD, que em 2024 assumiu a liderança no número de prefeituras no País.

Na eleição deste ano, a sigla concentra esforços na ampliação de sua bancada de deputados federais e na eleição de governadores. Em entrevista ao Estadão no início do ano, o presidente nacional do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), disse que a expectativa é dobrar o número atual de mandatários, alcançando seis governadores.

Já no âmbito nacional, apesar de integrar o governo Lula com três ministérios (Cidades, Transportes e Planejamento), a tendência do partido é liberar apoios nos estados, para que cada um adote um posicionamento mais condizente com sua realidade local.



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