Um papa brasileiro evitaria que o Brasil deixe de ser o país mais católico do mundo?

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Segundo as projeções, a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de evangélicos irá ultrapassar a de católicos na primeira metade da próxima década. O fenômeno se deve a uma série de fatores, entre eles o fato de a igreja evangélica ter se enraizado com mais profundidade na sociedade brasileira, nas últimas décadas, sobretudo entre os mais carentes, muitas vezes oferecendo serviços em que o Estado brasileiro é falho.

Com a igreja católica algo distante, com padres apenas eventuais para realizar missas em igrejas que ficam na maioria dos dias fechadas pelo interior afora, as denominações evangélicas se proliferam em pequenos lugares como garagens, galpões improvisados, até ao ar livre. Sem falar em grandes conglomerados como a Igreja Batista da Lagoinha, de Belo Horizonte. Nem mesmo o falecido papa Francisco refreou a marcha, apesar de trazer ares modernizantes à igreja – bastante questionados mesmo pelos católicos mais conservadores, aliás.

Mesmo com todas as suas ações modernizantes, o papa Francisco, que morreu nesta segunda-feira, 21, não conseguiu frear o avanço dos evangélicos Foto: Andrew Medichini

Setores da igreja católica comemoram o advento de um religioso carismático, como Frei Gilson, e suas missas da madrugada. Ele tem 18,2 milhões de seguidores nas redes sociais. Bem menos do que evangélicos como o pastor Bruno Leonardo, com 53 milhões de inscritos apenas no Youtube. Ou seja, nesse novo mundo, os católicos ainda comem poeira.

Percebe-se a marcha dos evangélicos em todo lugar. Na política, por meio dos próceres da teologia da prosperidade, como Pablo Marçal (sem falar na super atuante bancada evangélica do Congresso). No setor financeiro, a igreja expande seus tentáculos com a fintech Clava Forte Bank, um dos braços da igreja da Lagoinha. Nas periferias, a igreja evangélica oferece serviços como aconselhamento de casais e ações para livrar as pessoas do álcool de das drogas. Já os impérios de comunicação têm se consolidado há décadas, com a Record de Edir Macedo.

Tome-se se o caso da Vila do Catimbau, um lugarejo com menos de mil habitantes na transição entre o agreste e o sertão de Pernambuco, num domingo qualquer do ano. No final da tarde é possível observar as famílias, com seus melhores trajes, em direção às mais de uma dezena de agremiações evangélicas do lugar. No caminho, atravessam uma praça onde a igreja católica se encontra fechada.

Essa ascensão das igrejas evangélicas também é marcada com seus valores, muitas vezes muito mais conservadores e em alguns casos mais reacionários do que a média brasileira. Se a tendência continuar, esqueçam o Brasil como imagem do hedonismo mundial. Não custa lembrar que a reprovação de Lula no segmento chega a 70%. A vantagem de Jair Bolsonaro sobre Lula num cenário improvável para 2026 é de 43% a 24%, de acordo com o Datafolha.

Obviamente, um papa tem muito com o que se preocupar além do Brasil. Há os conflitos de Gaza, do Sudão, na Síria, com seus morticínios. Há os abusos do presidente americano Donald Trump com os mais fracos. A disputa multipolar entre EUA, China, Europa e Rússia. Há as eternas causas divisivas da sociedade, como a do aborto, da diversidade, entre outras. Há a complexa política interna do Vaticano.

Mas o Brasil segue como o país com mais católicos do mundo, a despeito de nem ter o maior número de cardeais no Vaticano. Se não houver um empenho forte com relação aos brasileiros, a força interna da igreja católica irá diminuir ainda mais, com consequências em todo o mundo. Logo, na múltipla teia de interesses que envolve um conclave, o fator Brasil deve ser visto como uma questão relevante. Em tempo, vale a pena agora, mais que nunca, assistir ao filme Conclave, que concorreu o Oscar de melhor filme em 2025.



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