Foto: Cecilia Acioli/EstadaoMichele CarboneGeneral da Guardia di Finanza
General da Guardia di Finanza, a polícia financeira da Itália, Michele Carbone é o homem que comanda o combate à lavagem de dinheiro das máfias e do crime organizado na Itália. Ele está à frente da poderosa Direção Investigativa Antimáfia (DIA), a agência do estado italiano que sequestra anualmente milhares de empresas, imóveis e outros bens da criminalidade organizada. Não foi por outra razão que a máfia dinamitou uma estrada para fazer ir pelos ares o carro do idealizador da DIA, o juiz Giovanni Falcone, matando o magistrado, sua mulher e três homens de sua escolta, em 1992.
Na décadas seguintes, a siciliana Cosa Nostra viu-se ultrapassada pela silenciosa e não menos letal ‘Ndrangheta, que estabeleceu seus tentáculos na América do Sul, em especial em sociedade com o Primeiro Comando da Capital (PCC), como mostraram investigações na Itália e no Brasil, como as operações Eureka, Mafiusi e Narcobroker.
O Estadão entrevistou Carbone durante o fórum Cybercrime: A cooperação entre Itália e Brasil, parte da 12.ª Edição da Semana Internacional do think tank italiano Fondazione Magna Grecia, que ocorreu entre 22 e 24 de abril, no Rio. Na entrevista, o general trata das novas oportunidades surgidas para o crime organizado com a digitalização da economia e da vida, além do combate à lavagem de dinheiro e do tráfico transatlântico de cocaína, que ameaça a União Europeia e a colaboração da DIA com a Polícia Federal.

O general da Guardia di Finanza, Michele Carbone, diretor da Direzione Investigativa Antimafia (DIA), da Itália, durante evento da Fondazione Magna Grecia, no Consulado Italiano do Rio Foto: Cecilia Acioli/Estadao
Como é a geografia dos paraísos fiscais no mundo de hoje e o quanto eles ainda contam para a lavagem de lucros do crime organizado?
Infelizmente, ainda hoje temos que observar muitos Estados e países que, no terreno da cooperação internacional, não desenvolvem uma atividade colaborativa. São os chamados centros offshore que ainda estão presentes, por exemplo, em Samoa, Trinidad e Tobago, Fiji, Vanuatu, Rússia e Panamá. Esses países, por meio de suas atividades, justamente, por meio da não cooperação, muitas vezes permitem que o crime organizado esconda seus lucros em suas fronteiras.
‘Follow the money’, seguir o dinheiro, ainda é uma fórmula para combater e enfrentar, efetivamente, o crime organizado?
Seguir o dinheiro, método investigativo criado pelo juiz Giovanni Falcone, vítima da máfia, foi recentemente indicado em uma declaração da ONU como um marco ainda válido no combate ao crime organizado. No entanto, seguir o dinheiro, localizar o rastro do dinheiro, é um caminho que se vê interrompido quando estamos na presença, justamente, desses países-paraísos fiscais, de centros offshore, que não respondem às cartas rogatórias internacionais do Judiciário e das forças policiais. Nesse momento, somos obrigados a parar porque não podemos seguir o dinheiro nesses Estados.

Os mafiosos Nicola Assisi e seu filho Patrick Assisi, presos pela PF em São Paulo, eles cumprem pena no sistema de presídios federal do Brasil: ligação da ‘Ndrangheta com o PCC Foto: Polícia Federal
Como as criptomoedas podem representar ou representam um novo desafio para as autoridades policiais em seu trabalho de rastrear os lucros do crime organizado?
As criptomoedas são uma oportunidade que o crime organizado está aproveitando. Esses instrumentos digitais tornam mais complicada e complexa a luta contra a criminalidade organizada, sobretudo quando essas moedas digitais passam por canais informais, os canais não regulamentados pelos Estados. Então, por meio de plataformas de blockchain, por meio da mistura dessas criptomoedas, o combate contra a criminalidade em geral está se tornando cada vez mais complexo.
A desregulamentação bancária criou novas oportunidades de lavagem de dinheiro para o crime organizado no Brasil. O novo governo americano também discute o mesmo tópico. Qual a importância de regras claras no sistema financeiro para combater a lavagem de dinheiro?
O sistema de desregulamentação, no que diz respeito aos circuitos bancários e financeiros, constitui também uma oportunidade para o crime organizado. A chamada desmaterialização do sistema financeiro, as chamadas finanças descentralizadas, tudo o que diz respeito à desintermediação nos sistemas de transferência de dinheiro e de divisas traz uma série de oportunidades, de facilidades para o crime organizado. Isso ocorre porque as autoridades responsáveis pelo combate e prevenção à lavagem de dinheiro desconhecem essas operações, que são realizadas remotamente e, portanto, as autoridades dispõem de menos ferramentas, têm-se menos possibilidades de identificar essas operações ilícitas. Tudo isso exige sistemas avançados de prevenção e repressão à lavagem de dinheiro e controle dessas operações cada vez mais deslocalizadas.
Como o uso da inteligência artificial pode ameaçar a segurança pública, no sentido de criar novas oportunidades para grupos mafiosos?
A inteligência artificial, assim como a digitalização, é outra ferramenta que cria facilidades para a máfia e para o crime organizado. Digamos logo que o ‘setor de inteligência’ das máfias já têm inteligência artificial porque, tendo muito dinheiro, tendo muita disponibilidade financeira, elas conseguem ter os melhores consultores nesse aspecto. Como a inteligência artificial está facilitando as máfias e o crime organizado? Pensemos, por exemplo, na possibilidade de monitorar sistemas de controle territorial. Pensemos, por exemplo, na possibilidade de conhecer os sistemas de prevenção dentro dos portos, quanto à identificação de contêineres que contêm drogas ou sistemas que vão buscar, inclusive, dados sensíveis e que, portanto, quando chegam às mãos da máfia, constituem bens preciosos para serem utilizados com fins ilícitos.

Trecho da investigação italiana com a Foto enviada pelos traficantes de armas para os mafiosos da ‘Ndrangheta: fuzis AK-47 teriam como destino o PCC Foto: Reprodução / Estadão
A tecnologia tornou possível que criminosos operem por meio de operações online e offline, não apenas para fraudar pessoas, mas também para recrutá-las para suas organizações. Esses problemas ocorrem no Brasil. E na Itália? Como um único país pode combater esse fenômeno sem cooperar com outros países?
Este é outro tema importante e também um tema delicado, porque, por exemplo, na Itália, por meio da tecnologia, por meio das redes sociais, do TikTok, as máfias recrutam os seus adeptos sempre mais jovens, talvez, atraindo esses jovens com promessas de ganho fácil. Naturalmente, isso requer não apenas medidas de repressão, de polícia, mas também intervenções de tipo cultural para fazer entender que as máfias não combatem o mal na sociedade, mas são parte dele. Por isso, é importante que a sociedade e as instituições públicas possam exercer uma atividade de vigilância, principalmente, das gerações mais jovens, fazendo-as compreender os valores importantes da honestidade, do trabalho honesto e não, em vez disso, do dinheiro fácil.
Para a Itália, qual a importância dos criminosos do PCC, grupo brasileiro que se aliou à ‘Ndrangheta no tráfico transatlântico de drogas? Pode-se dizer que o PCC ameaça a Itália?
Entre os tráficos ilegais das máfias, certamente o narcotráfico é o principal. É o crime que proporciona mais dinheiro à máfia. E, atualmente, a droga chega sobretudo do Centro-Sul da América, o que faz com que os brokers da ‘Ndrangheta e de outras organizações presentes na Itália, como as albanesas, mantenham contatos diretos com os cartéis sul-americanos ou da América Central, incluindo, sobretudo, a ‘Ndrangheta, com o Primeiro Comando do Capital. Portanto, as suas relações, a disposição do PCC em facilitar o fornecimento de narcóticos, certamente, constitui, no que diz respeito à ‘Ndrangheta calabresa, uma oportunidade oferecida a ela que facilita a sua atividade criminosa não só na Itália, mas também na União Europeia. Nesse sentido, os contatos, essa joint-venture entre a ‘Ndrangheta e o PCC, facilitam os propósitos criminosos e os propósitos de enriquecimento econômico das nossas organizações mafiosas.
No governo Lula ainda se discute se o Brasil deve ter ou não um órgão que centralize o combate ao crime organizado, com a participação de todos as polícias. Quão importante foi para a Itália criar uma organização como a DIA?
A Direção Investigativa Antimáfia nasceu de um ideia do juiz Giovanni Falcone. Ela tem uma vida de apenas 34, 35 anos. Pela ideia de Giovanni Falcone, a DIA foi criada para lidar exclusivamente com a luta contra organizações do tipo mafioso, tanto dentro da Itália, quanto para fins de relações investigativas com todos os outros países do mundo. E, neste ponto, quero ressaltar que o Brasil faz parte da chamada rede @ON. É uma rede que a DIA gerencia e que permite que as autoridades policiais e judiciárias brasileiras possam ter apoio, contribuição e auxílio da Diretoria de Investigações Antimáfia quando há ligações com crimes em países europeus.

Trecho de relatório da Diretoria de Investigação Antimáfica do Ministério do Interior da Itália que trata das ligações entre o PCC, a ‘ndrangheta e o Hezbollah Foto: Reprodução/ Estadão
Como a DIA consegue agregar os carabineiros, a Polícia de Estado e Guarda de Finanças, todos agentes do Estado italiano, para intervir de forma mais eficaz contra o crime organizado?
A direção investigativa antimáfia da DIA é um exemplo virtuoso de como três forças policiais, os carabineiros, a Guardia di Finanza e a Polícia de Estado, têm trabalhado contra o crime organizado. Esse sistema se aplica não apenas quando as três forças policiais estão incluídas na DIA, mas também quando cada força policial é chamada a combater o crime organizado individualmente. E, assim, há sempre uma sinergia entre as três forças policiais, sempre há uma colaboração, uma troca de informações, especialmente, quando operam sob a supervisão do Judiciário.
As ferramentas utilizadas no combate ao terrorismo podem ser utilizadas com a mesma eficácia contra o crime organizado?
Muitas medidas que lidam com o crime organizado são igualmente aplicáveis à luta contra o terrorismo internacional. Por exemplo, a tudo o que se relacionava ao financiamento ilícito de organizações terroristas pode-se aplicar todo o sistema de prevenção e de repressão à lavagem de dinheiro ilícito de organizações criminosas.